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Advento no mundo, mas não do mundo - Na esteira do Papa Francisco –


  Postado dia 11/12/2020 categoria Arquidiocese por usuário Karina Freitas.


 Enio José Rigo

1. As três vindas do Senhor

  1ª vinda. A Encarnação: Pelo Mistério da Encarnação, o próprio Deus entrou no tempo e passou a fazer parte da história da humanidade. Quando chegou a plenitude dos tempos, adicionou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, sob a Lei, para remir os que estava sob a Lei, afim de que recebêssemos a adoção filial” (Gal 4,4). Graças ao sim de Maria, Deus veio habitar entre nós (Lc 1,38). “Dias virão em que farei brotar de Davi um rebento justo [...], Sob o seu reinado, será salvo Judá, e viverá Israel em segurança” (Jr 23,5-6). A promessa anunciada e esperada se cumpriu. Com diz no prólogo: “No princípio já existia a Palavrae a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus.E a Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós ”(Jo1.1.14).

  2ª vinda. Emanuel Deus-conosco: O Senhor visita-nos continuamente os dias. Ele faz parte da vida e manifesta-se pelos acontecimentos. Apresenta-se a nós glorioso ou desfigurado. É honrado no irmão que passa da morte para a vida, do pecado para a graça, do inferno para o paraíso. Nisso Deus é glorificado, pois “a glória de Deus é o homem com vida” (Santo Ireneu de Lião, +202).

Apresenta-se a nós desfigurado no pobre, no fraco, no desvalido, na viúva, no povo em situação de rua, sem saúde, sem trabalho, dependente do álcool e da droga, prostituído, enganado. Desfigurado nos presos, nos especuladores da bolsa, na gravidez precoce, na violência contra as minorias, nos refugiados, nos jovens de vida saudável, mas de vida vazia, próximos à loucura do suicídio etc.

  3ª vinda. Nenhum juízo final: Neste encontro, sem a proteção da carne que cobre o espírito, nada falaremos, nem levaremos currículo, nem a beleza do corpo, nem a segurança dos bens, nem defesas de advogados e juízes. Quem falará será uma linguagem do amor derrotado por Mateus no cap. 25, 31-46, sobre o juízo final: “eu estava com fome, com sede, peregrino, enfermo, preso. Eu. Sim, era eu ... e, por mim, fizeste as obras de misericórdia. Então, vinde, benditos de meu Pai ou, ide, malditos. Não vos conheço. Não sei de onde sois.

2. O advento no [...] mundo, mas não do mundo

  Enquanto pensava o que escrever sobre esta afirmação do Papa Francisco, lembrei de um texto, do início do cristianismo (+ 120 dc), no qual um pagão, chamado Diogneto, impressionado como viviam os cristãos, perguntava-se sobre o porquê agiam assim? (cito dois paragrafos). Eis a resposta.

Excelentíssimo Diogneto,

Vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que muito sábia e dever te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não consideram os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a recordem dos valores? Que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros? E, finalmente, por que esta nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes?

Aprovo este teu desejo e peço a Deus, que preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao ouvir, não se arrependa aquele que falou.

Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou fantasias. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver.

Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e à especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casas gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos trajes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.

Vivem na sua Pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda Pátria estrangeira é Pátria deles, e cada Pátria é estrangeira.

Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos.

Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem às leis, mas com sua vida ultrapassam as leis.

Amam a todos e são perseguidos por todos. São desconhecidos e, apesar disso, condenados. São mortos, e, deste modo, lhes é dada a vida. São pobres e enriquecem muitos. Carecem de tudo e têm abundância de tudo. São desprezados e, não desprezo, tornam-se glorificados.

São amaldiçoados e, depois, proclamados justos. São injuriados e bendizem. São maltratados e honram. Fazem o bem e são punidos como malfeitores. São condenados e se alegram como se recebessem a vida. Pelos encontrados, são combatidos como estrangeiros, pelos gregos, são perseguidos, aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.

Em notas, palavras como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo. Os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo.A alma invisível está contida num corpo visível. Os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível.

A carne, odeia e combate a alma, embora não tenha permissão nenhuma ofensa dela, porque esta a impedir de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido a justiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres.

A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que são odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo.

A alma imortal habita em uma tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus.Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.

(Autor desconhecido)

4. Inspirados nesta bela reflexão, celebremos o advento no mundo, mas não do mundo

  E, se os pagãos de hoje, pensando sobre o Natal, perguntassem sobre nós, cristãos, de hoje. O que se diria? Eis um programa de vida para preparamos o Natal.