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Olhar de Fé - Deus e a pandemia


  Postado dia 17/09/2021 categoria Arquidiocese por usuário admin.


Com a pandemia da Covid-19 novos ritmos e estilos de interagir com a nova realidade foram se impondo em nossas rotinas. A falsa segurança e o delírio de onipotência ruíram. Diante do flagelo, entretanto, alguém poderá se questionar: “Onde está Deus?” Igualmente, os teólogos após a Segunda Guerra Mundial se perguntavam: “Como falar de Deus para os olhos que viram Hiroshima, Nagasaki e Auschwitz?”

Como naquele tempo, a complexa situação que a humanidade está vivendo hoje implica na revisão das nossas relações econômicas, políticas e culturais. Também o âmbito religioso precisa fazer uma leitura sobre a crise. O que Deus está nos dizendo?

Para a tradição judaico-cristã, trata-se de redescobrir o sentido do silêncio do Eterno diante do sofrimento, superando discursos que interpretam a pandemia como castigo. Um Deus violento só pode ser pensado por quem não conhece o amor e a misericórdia. A interpretação de que Deus seria o autor dessa realidade é resultado de projeções do desejo humano diante dos contextos inusitados que a humanidade vive.

Deus criou este mundo e lhe concedeu total autonomia. A presença do mal no mundo e nas decisões humanas é um mistério para todos. O silêncio de Deus, porém, não é apatia, pois quem crê sente o amor real de Cristo, que não o livra da cruz. A fé cristã faz perceber que a última palavra da história não será a doença e a morte.

Diante da profissão de fé, é preciso crer e esperar em Deus, na certeza de que toda essa realidade que estamos vivendo passará, mas nos leva a rever nossa capacidade de entender a vida. Urge uma hermenêutica acessível e consciente, que auxilie na leitura dos fatos.  É preciso evitar discursos religiosos fatalistas ou proselitistas. A pandemia não está ocorrendo por causa de nossos pecados ou como uma espécie de provação, na qual Deus estaria testando nossa fidelidade.  Ela ocorre como uma realidade imprevisível que revela nossa fragilidade.  Ao invés de ser assumida como provação ou castigo, a pandemia pode ser encarada como um tempo profético e escatológico, no qual muitas verdades, até então escondidas, são reveladas. Cabe a cada cristão acolher o tempo presente vivendo entre as coisas que passam e “abraçando” aquelas que não passam.  A empatia, a solidariedade e a defesa da vida são testemunhos de uma caridade que jamais se perderá. A renovação da fé e a proximidade de Deus em nosso cotidiano é um imperativo para quem quer bom senso e paz.

Dom Leomar Antônio Brustolin

Arcebispo Metropolitano